Coluna Surto Mundo Afora #42


Por Bruno Guedes
 
Faltam 500 dias para os "Jogos Olímpicos da Reconstrução". Assim está sendo chamada a próxima Olimpíada, em Tóquio. Na semana que divulgou os horários das modalidades, novamente reforçaram essa afirmação. A alcunha é uma referência direta ao trágico terremoto de 2011, onde 8 mil pessoas morreram e quase 100 mil foram afetadas de alguma maneira. Os nipônicos querem mostrar pro mundo que se reergueram. Assim como fizeram em 1964, quando o Japão recebeu pela primeira vez o evento. E há muitas outras semelhanças entre os dois momentos olímpicos.

O Japão acolhe o mundo esportivo nove anos após ser assolado por momentos de grande incerteza sobre os benefícios nucleares, quando a Usina de Fukushima teve três dos seus seis reatores derretidos, em março de 2011. A falha ocorreu quando ela foi atingida por um tsunami provocado a partir de um terremoto de magnitude 8,7. Desde então, os japoneses buscam forças para voltar às referências de progresso, tecnologia e segurança que cultivaram com muito empenho desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

E é aí que começam as coincidências. Esta é a terceira vez que Tóquio é escolhida para ser sede das Olimpíadas, mas a segunda que de fato vai recebê-las. Isso porque, em 1940, a primeira vez que o COI tentou levar o evento para a cidade, a Alemanha Nazista invadia os países da Europa e o então Império Japonês os da Ásia. Os Jogos foram cancelados. Bem como os de 1944, que seriam em Londres. O fim do conflito todos sabem como terminou: com duas bombas nucleares caindo sobre o Japão.

Em 1964, quando o Olimpo finalmente pode desembarcar no país, os japoneses tentavam mostrar ao mundo que muita coisa tinha mudado desde os bombardeios em Hiroshima e Nagasaki. O compromisso era provar para as demais nações que as dores tinham sido superadas, uma nova nação mais consciente estava de pé e caminhando em direção ao futuro. E é exatamente assim que em 2020 pretendem repetir.

Para a reconstrução da cidade de Tóquio, que tinha sido bombardeada pelos Aliados na Segunda Guerra Mundial, foram empregados US$ 16 bilhões. Sendo que durante o chamado "milagre japonês", durante as décadas de 50 e 60, US$ 3 bilhões apenas na cidade. Isso, convertido em valores atuais, seria algo em torno de US$ 25 bilhões somente na capital nipônica.

Junto ao alto investimento veio o avanço das tecnologias e a necessidade de afirmação dos esportes. Com cronometragem e novos recursos para aferições de tempo ou dados, o desenvolvimento tecnológico foi marca daquela edição. Como exemplo, foi a primeira transmissão a cores dos Jogos e a circulação do shinkansen, o famoso trem-bala.

E o Japão passou a ser conhecido, desde então, como o país das novas descobertas do setor. Chamada de "Happy Games" (Jogos Felizes), foram os maiores desde então. Foi o momento ideal para uma propaganda positiva. Yoshimori Sakai, nascido no mesmo dia em que a primeira bomba atômica devastou o país em 1945, foi quem acendeu a pira olímpica. O exorcismo do duro passado recente estava feito.

Após 56 anos, a história volta a flertar com os japoneses. Mas desta vez é uma "nova era". Literalmente. Com abdicação do imperador Akihito em favor do seu filho Naruhito, o Japão se prepara para a "Reiwa". O nome traz uma simbologia que assusta: seu significado pode ser "bom" ou "harmonia". Exatamente o que os japoneses estão buscando em 2020.

Entretanto se o trauma é menor, os valores são bem maiores. O Japão calcula o custo da reconstrução após terremoto em US$ 310 bilhões. Só para as Olimpíadas já foram empregados US$ 25 bilhões, sendo que a estimativa girava em US$ 7 bilhões em 2013, ano da escolha como sede.

Além das instalações olímpicas, os asiáticos também focaram na reconstrução de Fukushima. Milhares de famílias ainda estão fora da cidade e diversas áreas isoladas. Mais de 50 mil pessoas vivem na condição de refugiados, em residências provisórias e com auxílio financeiro. Mas a previsão é de que os trens voltem a operar em parte da região. Para isso, as Olimpíadas chegam como auxílio em fôlego novo.

Mas a tecnologia, novamente, volta como o elo entre aquele passado e o presente. A começar pela pira, com alumínio reciclado. O metal havia sido originalmente usado na construção de casas pré-fabricadas após o tsunami de 2011. Sensação nos últimos anos, as criptmoedas serão utilizadas nas transações comerciais. Além disso, se na primeira edição a novidade era a TV a cores, agora é a 8K. Essa nova geração das transmissões, feita a 7680×4320, apresenta 16 vezes mais pixels do que o HD atual. Uma revolução. Como em 1964.

Só que o grande auxílio da modernidade deve ficar por conta do reconhecimento facial. A tecnologia usará um sistema capaz de melhorar a segurança na aferição dos 300.000 atletas, funcionários da organização e jornalistas. Segundo a Tóquio 2020, o recurso estará presente nas entradas das 43 instalações da competição, da Vila Olímpica e dos centros de imprensa. Entretanto, não será aplicado aos espectadores por questões de direitos legais. 

Utilizando-se de apenas 0,3 segundo, o reconhecimento fará a verificação do rosto da pessoa com a foto do chip em sua credencial. Assim, não autorizados terão acessos impedidos às áreas restritas e evitará a falsificação de possíveis infratores. O projeto, que será acompanhado por diversos representantes de outros países, promete ser empregado pelo mundo afora em caso de sucesso.

E quando falamos do Japão, impossível não pensar nos seus robôs. A organização projeta que eles darão auxílios em diferentes esferas, desde os turistas até no cotidiano da cidade. Os mesmos que estarão visitando as mais diversas instalações. Além de novas arquiteturas, antigos lugares utilizados há 56 anos foram reaproveitados e modernizados. A reconstrução sustentável, mas também com a mensagem clara para as novas gerações. O que foi feito para ajudar no crescimento daqueles tempos continua a ser o alicerce da mudança japonesa.

Dentro de 500 dias os "Jogos Olímpicos da Reconstrução" prometem grandes legados esportivos. Mas o maior de todos é novamente a reconstrução de um país símbolo de superação, educação e tecnologia. O Japão não quer apenas mostrar que pode receber o mundo dos esportes, querem provar que o gigante asiático é capaz de superar seus grandes traumas ainda que eles reapareçam a cada era.

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