Time feminino de Curling da Coreia do Sul denuncia exploração das jogadoras após Olimpíadas

As integrantes da equipe de Curling da Coréia do Sul, medalha de Prata nas Olimpíadas de Inverno de PyeongCheng vieram a público com graves denúncias de comportamentos abusivos por parte da equipe técnica e da própria federação coreana do esporte. 

As cinco jogadoras são conhecidas como "Kim Team"—por todas terem o mesmo sobrenome—ou mais popularmente "Garlic Girls": as "Garotas do Alho", em alusão à Uiseong, sua província de origem e grande produtora do tempero. Após os jogos as integrantes da equipe foram guindadas à condição de celebridades nacionais, e segundo declarações, por conta da fama conquistada teriam sido sujeitas à diversas situações exploratórias, tanto no tratamento de suas carreiras quanto de suas vidas pessoais. O caso está sendo comparado às práticas e exigências muitas vezes abusivas da cultura de negócios e imagem dos ídolos pop asiáticos. 

"Pancake" YeongMi, "Steak" KyeonGae, "Sunny" SeonYeong, "ChoCho" ChoHee e a capitã "Anny" EunJung descreveram a situação como "desesperadora" e "insuportável" em uma carta pública dirigida ao Comitê Olímpico da Coréia e em entrevista para a emissora de TV SBS: "Os direitos humanos das atletas estão sendo violados".

"Anny" EunJung teria sido afastada do time após se casar e anunciar planos de ter filhos, o que segundo as companheiras de equipe foi considerado um ato de desobediência pela comissão técnica. A comissão técnica também foi acusada de maus tratos, descaso, agressões verbais, manipulação de agendas e também estaria retendo o dinheiro relativo ao uso de imagem e dos prêmios de competições internacionais das jogadoras desde 2015. 

Boa parte dessa exploração teria sido feita por Kim KyungDoo, ex-vice presidente da Federação Coreana de Curling e pai da técnica da equipe, Kim MinJung. As jogadoras descreveram os problemas enfrentados na preparação para as Olimpíadas e disseram não querer mais trabalhar com Kim MinJung e com seu marido, Jang BanSeok, técnico de duplas mistas e gerente de negócios do time: "Nossa técnica Kim quase nunca estava presente enquanto treinávamos para as Olimpíadas. Sempre que fazíamos reclamações sobre Kim para Kim KyungDoo, seu pai, ele nos agredia verbalmente".

As jogadoras descreveram ocasiões em que foram forçadas a comparecer em diversos eventos públicos contra a vontade e sem receber pagamento, e foram proibidas de fazer uso de redes sociais após as Olimpíadas de PyeongChang. 

A equipe também alega estar sendo usada como elemento de pressão na disputa entre a atual diretoria da Federação Coreana de Curling e a anterior, da qual Kim KyungDoo fazia parte. Kim KyungDoo está processando a Federação Coreana de Curling após ter sido afastado por não realizar eleições para a presidência da entidade, cargo que ocupava interinamente. 

As "Garlic Girls" revelaram ter sido desencorajadas pelos técnicos—familiares de Kim KyungDoo—de participar das seletivas nacionais numa tentativa de fazer o evento, organizado pela atual diretoria da Federação que enfrenta problemas financeiros, ser um fracasso de bilheteria: "Ficamos pasmas quando os técnicos nos disseram para não tentar as seletivas para time nacional". A equipe cedeu a outras pressões de mídia e público e acabou participando das seletivas de última hora, sem ter um preparo adequado: ficou em segundo lugar, o que tirou suas chances de ter os custos de competições internacionais pagos pelo Comitê Olímpico da Coréia, única verba de entidade esportiva disponível para o curling no país. "Não conseguimos pensar nada além de que estamos sendo usadas nas suas disputas pessoais", declararam as jogadoras, que disseram não ter tido atividades esportivas expressivas desde então: "Estamos em um impasse desde as Olimpíadas e estamos miseráveis."

A comissão técnica nega as acusações, dizendo que as jogadoras teriam dado consentimento pleno para as aparições públicas. Sobre o dinheiro de prêmios, Jang BanSeok disse que a repartição teria sido feita de modo transparente e de comum acordo, com a maior parte da soma empregada em compra de equipamentos e em viagens e outra parte, relativa a eventos não esportivos enviada para as contas pessoais das jogadoras: "Achamos que não estava certo distribuir o dinheiro de prêmios para cada atleta para uso pessoal porque esse dinheiro foi ganho como uma equipe nacional apoiada pelo Comitê Olímpico da Coréia e outras organizações esportivas". 

O técnico também justificou o afastamento da capitã "Anny" EunJung como sendo "pelo melhor interesse do time", já que considerou seus planos de constituir família como prejudiciais à equipe: "EunJung é nossa única skip (capitã). Se ela engravidar e sair, nós não teremos uma skip."

O Ministério dos Esportes e o Comitê Olímpico da Coréia do Sul devem iniciar na próxima semana investigações para apurar responsabilidades no caso.



Foto: WCF

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