Coluna Surtado no Esporte: 10 anos da geração de ouro do Judô feminino e o adeus a Érika Miranda, um dos seus pilares

Até 2008, há pouco mais de 10 anos, na Olimpíada de Pequim (CHN), o judô já era reconhecido como uma das modalidades olímpicas com resultados mais expressivos para o Brasil, em grande parte devido a atuação dos homens.

No quesito pódio em mundiais, por exemplo, até os jogos olímpicos celebrados na China, apenas duas judocas brasileiras haviam sido medalhistas: Danielle Zangrando (-56kg) bronze em Tóquio/1995 e Edinanci Silva (-78kg) bronze em Paris/1997 e em Osaka/2003.

O esporte era dominado pelos homens, que, naquela altura, já colecionavam 4 títulos mundiais (João Derly Cairo/2005 e Rio/2007, Tiago Camilo Rio/2007 e Luciano Correa Rio/2007) e 2 medalhas de ouro olímpicas (Aurélio Miguel Seul/1988 e Rogério Sampaio Barcelona/1992). Sem contar as diversas medalhas de outras cores em ambos os eventos.

Porém, a Olimpíada de Pequim/2008 marcou o início de uma nova era de domínio feminino no judô brasileiro. Na China, Ketleyn Quadros abriu as portas para as judocas brasileiras e se tornou a primeira medalhista olímpica na modalidade entre as mulheres (além de ser a primeira mulher brasileira medalhista em esporte individual em Jogos Olímpicos).

Dali em diante, iniciou-se um período de grandes conquistas para o judô feminino do Brasil, com memoráveis feitos por parte delas em mundiais e olimpíadas, o qual ouso chamar de geração de ouro.

Logo em 2010, no mundial de Tóquio, Mayra Aguiar foi a primeira judoca brasileira a alcançar uma final em mundiais. E acabou com a medalha de prata. No mesmo evento, Sarah Menezes ficou com o bronze.

No mundial seguinte, em Paris/2011, Rafaela Silva alcançou a final, mas ainda não foi a vez de subirmos ao lugar mais alto do pódio. Prata pra ela. Sarah Menezes e Mayra Aguiar ficaram com medalhas de bronze.

Nas olimpíadas de Londres/2012, duas novas medalhas para as meninas. O ouro de Sarah Menezes, nossa primeira medalha dourada entre as mulheres no judô olímpico, e o bronze de Mayra Aguiar. Os meninos conseguiram duas medalhas de bronze com Felipe Kitadai e Rafael Silva. Pela primeira vez, as mulheres superavam os homens na competição de Judô olímpica, ao menos no critério de “peso” das medalhas.


Em 2013, o Rio recebeu mais uma vez o Campeonato Mundial de Judô, com um show da mulherada. Rafaela Silva se sagrou a primeira campeã mundial do Brasil. Érika Miranda e Maria Suelen Altheman atingiram as finais também, mas ficaram com o vice-campeonato. Sarah Menezes e Mayra Aguiar ficaram com medalhas de bronze. 5 medalhas conquistadas somente pelas nossas meninas.

Chelyabinsk/2014, na Rússia, foi a próxima parada para o mundial. Mayra Aguiar conquistou nosso segundo título mundial entre as mulheres. Maria Suelen Altheman foi medalhista de prata e Érika Miranda ganhou sua segunda medalha, agora de bronze. No mundial seguinte, em Astana(KAZ/2015), Érika Miranda trouxe mais um bronze. Sua terceira medalha.

No Rio/2016, novamente as mulheres superaram os homens nos jogos olímpicos. Um medalha de ouro com Rafaela Silva e uma de bronze com Mayra Aguiar. Os homens subiram ao pódio apenas uma vez com Rafael Silva, bronze no +100kg.


Em Budapeste/2017, mais duas medalhas trazidas pelas brasileiras. Érika Miranda foi medalhista de bronze e Mayra ganhou o seu bicampeonato e quinta medalha em mundiais.

No mais recente mundial, agora em 2018, em Baku, Érika foi responsável por conquistar a única medalha do judô brasileiro. Sua quinta no total, empatando com Mayra como as mais vitoriosas do Brasil em mundiais.

Para se ter uma noção da evolução do Judô feminino brasileiro, preparamos duas tabelas. A primeira mostra o quadro de medalhas comparativo das performances entre homens e mulheres até antes de Pequim/2008, enquando a segunda faz o comparativo depois do evento olímpico na China, quando o judô feminino brasileiro conquistou a primeira medalha nos Jogos.

Quadro de medalhas das conquistas do judô brasileiro até antes das Olimpíadas de Pequim/2008:

Ouro
Prata
Bronze
Total
Homens/Mundiais
4
2
8
14
Mulheres/Mundiais
0
0
3
3
Homens/Olimpíadas
2
3
7
12
Mulheres/Olimpíadas
0
0
0
0
TOTAL HOMENS
6
5
15
26
TOTAL MULHERES
0
0
3
3

Quadro de medalhas das conquistas de homens e mulheres a partir de Pequim/2008 (início da geração de ouro do judô feminino): 
 

Ouro
Prata
Bronze
Total
Homens/Mundiais
0
5
4
9
Mulheres/Mundiais
3
5
9
17
Homens/Olimpíadas
0
0
5
5
Mulheres/Olimpíadas
2
0
3
5
TOTAL HOMENS
0
5
9
14
TOTAL MULHERES
5
5
12
22

É nítida a evolução do judô feminino do Brasil. Foram 22 medalhas em mundiais e olimpíadas nos últimos 10 anos. 5 títulos. Um marco impressionante.


Dentro desses números, é impossível não se falar em Érika Miranda, que anunciou na última semana que iria deixar os tatames. A atleta de 31 anos, como dito acima, foi responsável pela única medalha brasileira no mundial desse ano e coleciona cinco pódios individuais em mundiais, feito repetido apenas por Mayra. A diferença é que as conquistas de Érika foram de forma consecutiva. Regularidade impressionante.

A atleta, infelizmente, não conseguiu a medalha olímpica. Quando ela ganhou o bronze em Baku, cheguei a postar nas minhas redes sociais que não havia atleta por quem eu torcesse mais do que pra ela em Tóquio/2020, porque, por tudo o que fez, era merecedora da medalha olímpica. Porém, em nada a ausência de medalha olímpica mancha a carreira dessa judoca, que mudou a cara do esporte. Fez parte e foi expoente dessa geração de ouro e, infelizmente, é a primeira das brilhantes judocas a se despedir.

Essa despedida traz a preocupação sobre a transição de gerações no judô feminino brasileiro. Após uma época tão vitoriosa, é possível manter o elevado nível na categoria?

É bom que se diga que o judô brasileiro tem novos nomes surgindo nas categorias de base, que, embora não tenham conseguido grandes conquistas a nível internacional, possuem potencial para tal. Cito Jéssica Pereira, sucessora imediata de Érika na categoria -52kg, Beatriz Souza, vice-campeã mundial sub21, na categoria +78kg, que vai disputar com Maria Suelen Altheman, outra peça dessa geração de ouro, a vaga em Tóquio/2020, Samanta Soares (-78kg) e Stefhannie Koyama (-48kg), japonesa naturalizada brasileira, que embora esteja em um ano atípico, mostrou em 2017 que pode se firmar como força na modalidade.

Outro questionamento surge com a saída de Érika: quanto tempo as meninas dessa geração ainda vão competir? No Japão, Mayra Aguiar terá 29 anos, Rafaela Silva 28, Sarah Menezes 30 e Maria Suelen Altheman 32 anos. Se Érika persistisse, teria 33 na competição olímpica. Elas ainda estarão em idade para competir em alto nível no Japão, mas é difícil se fazer previsões sobre suas pretensões para Paris/2024.


Uma coisa é certa. Essa geração sempre será lembrada como uma das mais vitoriosas do nosso judô, entre homens e mulheres. E Érika um dos pilares desses tempos áureos.

Fotos: 1-4) CBJ; 5) IJF.

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