Surto Entrevista: Silvio Lancellotti

Por Bruno Vieira, Bruno Guedes, Daniel Barbosa, Flavia Vasconcellos, Juvenal Dias, Kaique Oliveira, Marcos Antônio, Túlio Siqueira e Zelda Grimaldi

Silvio Lancellotti é uma sumidade esportiva, gastronômica e literária. Arquiteto de formação, Sílvio começou no jornalismo há cinquenta anos atrás e fez parte das equipes inaugurais das revistas 'Veja' e "Istoé', e como comentarista esportivo do campeonato italiano de futebol, que nos anos 80 era considerado o melhor campeonato de futebol do mundo e chef de cozinha (um dos mais renomados no mundo quando se trata de cozinha italiana) na TV se  tornou conhecido do grande publico. No esporte olímpico, Silvio também é gigante, participando de seis coberturas de seis jogos olímpicos, com destaque para Atlanta 96, onde ele comentou de "nado sincronizado a ginástica rítmica" na TV Record. Nesse papo sobre carreira no jornalismo esportivo, Silvio nos conta boas histórias, comenta sobre a mídia esportiva atual e muito mais. Confira:
 

- No seu blog do R7 (https://esportes.r7.com/prisma/silvio-lancellotti) você contou sobre sua primeira cobertura jornalística há 50 anos atrás. E como foi sua primeira cobertura esportiva?

Inesquecível. O Milésimo gol do Pelé. Fui ao Rio, pra uma cobertura trivial de revista semanal, a 'Veja'. O gol seria apenas o gancho de um textão sobre a paixão pelo Futebol, etcetera e tal. No avião, porém, me coube a sorte suprema de me sentar ao lado do Zaluar, antigo arqueiro do Corinthians de Santo André, o primeiro a sofrer um tento do Rei, que era ainda um menino. A Imprensa toda do país atrás do Zaluar e ele caiu no meu colo...

- E como foi sua primeira cobertura em Jogos olímpicos? Tem algum momento que você presenciou que considera marcante (de qualquer olimpíada que tenha ido)?

Momento emocionante, Atlanta/96... Eu comentava a abertura dos Jogos com o (narrador) Luiz Alfredo quando identifiquei a figura capengante que recebeu a tocha olímpica e rumou até a pira que deveria acender. Acho que percebi quem era antes mesmo de o locutor do estádio, que obviamente já sabia, informar pelos alto falantes. Atropelei a fala do Luiz Alfredo e gritei: "Muhammad Ali, Muhammad Ali, aquele que um dia foi Cassius Clay!".

- Qual modalidade olímpica você mais gosta de acompanhar? E Tem alguma que você 'torça o nariz' para acompanhar?

Ah, não faço distinção entre os filhotes. Claro que adoro o Atletismo, a Natação, o Basquete e o Vôlei. Mas, para ficar em Atlanta, comentei até Nado Sincronizado e Ginástica Rítmica. E, por celular, da Baía de Savannah, transmiti os ouros da dupla do Star (Marcelão/Torben) e do Laser/Scheidt. Claro que, obviamente, me preparei bastante antes de falar ao vivo. E consegui anunciar que o Star e o Laser eram campeões das duas classes antes de a imagenzinha confirmadora aparecer nas telas das TVs.

Eu me recordo, até, do que aconteceu no Star, quando berrei o ouro da dupla do Brasil na hora em que aconteceu a largada e também ocorreu a queimada de um barco rival que ainda poderia subir ao topo do pódio. Por outro celular que eu levava, recebi um esporro do também saudoso Eduardo Lafon, o diretor da emissora (Record), que estava em Atlanta. Audácia minha, ele afirmou. Estava diante dos monitores com os outros canais que cobriam o evento e só eu, maluco, tinha falado em ouro para o Brasil. No ar, mesmo, expliquei que a confirmação viria em minutos, na primeira boia, com a bandeira da punição ao barco rival, etcetera e tal. Exatamente o que sucedeu. À noite, de retorno de Savannah a Atlanta, o Lafon me levou para jantar num restaurante chiquérrimo que oferecia uns dez tipos diferentes de ostras - com Champagne.

- Qual o maior 'perrengue' que você passou em uma cobertura esportiva?

Copa do México em 70. Integrava, pela Abril, a equipe conjunta de Veja e Placar. Fazíamos um rodízio no volante do carro alugado. No dia da decisão, seria eu o motorista. Estava tão nervoso que parti ao estádio sem perceber que o saudosíssimo Michel Laurence ainda não estava no veículo. O Michel foi de táxi, ao Azteca, com a intenção de me quebrar a cabeça. Felizmente se acalmou com a vitória do Brasil e daí comemoramos juntos.

- Dos narradores com que você dividiu a transmissão, Qual (ou quais) você mais gostou de trabalhar?

Perrengue, mesmo, é escolher um. Fiquei amigo de todos. Cada qual com a sua mania, com o seu estilo, todos competentíssimos, todos afetuosos, mesmo quando eu, eventualmente, dizia alguma bobagem. De todo modo, pela sua inevitável ausência, homenagearei aqueles que viraram estrelas no Céu: Luciano do Valle, Carlos Valladares e Marco Antônio Mattos.
Silvio e Luciano do Valle na copa de 90

- Voltaria à trabalhar na TV novamente, como comentarista esportivo ou em um programa culinário, se recebesse convite?

Sem dúvida... Mas, por causa da minha atual dificuldade de locomoção, com duas próteses depois de um acidente, não conseguiria cozinhar em pé...

- Tem alguma cobertura esportiva que você não fez, mas gostaria de ter feito?

A decisão da Copa de 2006, na Alemanha, vitória da Itália sobre a França, nos penais. Em duas décadas de transmissão do Calcio eu havia feito inúmeros amigos no Futebol da Bota. Gostaria de estar presente e até de, após o jogo, abraçar amigos como Buffon, Pirlo, Del Piero, Lippi.

- Como você vê o espaço dado ao esporte olímpico na mídia brasileira hoje em dia em comparação com 30, 40 anos atrás?

Na impressa, em meus idos de Folha, cheguei a ter páginas inteiras de análise, por exemplo em Seul/88 e Barcelona/92. Hoje em dia, mesmo o Futebol velho-de-guerra mal perece um espaço diminuto. Por outro lado, saibam que me emociona perceber a quantidade de apaixonados pelo Esporte Olímpico nas chamadas "redes sociais". Este 'Surto' é uma demonstração vivíssima do valor dos jovens profissionais.

- E como você viu a evolução do esporte olímpico acompanhando de perto? E como você vê o futuro do esporte no país com a eleição de um novo presidente?

A resposta a essa pergunta merece uma tese de doutoramento, que eu não pretendo fazer. Quanto ao futuro, não apenas no Esporte mas no geral do País, sem declarar o meu voto mas declarando nas entrelinhas quem não seria, não, nunca, o meu candidato, vejo com muita preocupação.

- Qual foi o seu maior desafio em ser bem-sucedido em múltiplas carreiras - arquiteto, jornalista, chef e escritor ?

Considerar que sou bem-sucedido é generosidade de quem pergunta. Sou um trabalhador, em todas as minhas atividades. E a elas aplico ao máximo o que aprendi, com humildade e com muita atenção.

- E dá para conciliar o prazer de uma boa pasta alla Carbonara com a necessidade de saltar mais alto, correr mais rápido, ganhar medalhas, ou o duelo do chef e do nutricionista na vida do atleta na ativa vai ser para sempre?

Bem, a Carbonara não é a minha massa predileta... E, sinceramente, não creio que exista esse duelo. Esportistas conscientes invariavelmente sabem de que modo devem combinar os seus prazeres e as suas obrigações.

Dou dois exemplos: A Silvana, esposa do Rubens Barrichello e amiga da Dani, uma das minhas filhas, costumava frequentar a minha casa para saborear as pizzas que eu fazia num forno de lenha do quintal. Certa noite, trouxe consigo o Rubinho, então seu namorado, e ele se limitou a um pedaçozinho conveniente. Delicadamente pediu desculpas e inclusive foi-se embora bem cedinho. O César Cielo era cliente habitual de um restaurante do qual cuidei, aqui em Moema, o PianoPiano. Havia noite em que não recusava o pão italiano com a manteiga do couvert. E havia noite em que me pedia que preparasse algum prato mais específico de acordo com a sua dieta de momento.

- No seu livro Honra ou Vendetta, você conta da máfia. Dá para traçar um paralelo do livro com dirigentes de confederações brasileiras?

Prefiro dizer que tratei da Cosa Nostra e de um certo Capo. Não da máfia com m minúsculo e não de qualquer cartola com c minúsculo. Não fui eu quem deu ao Senhor Carlos Arthur Nuzman o título de "Capo".

- Você fez o livro 'olimpíada 100 anos' em 96, mas esse foi o seu único livro sobre o tema. Nunca teve vontade de fazer outro livro sobre os jogos ou mesmo fazer uma versão atualizada dele?

Aquele livro, bem, aquele compêndio descomunal, de 1996, foi uma obra sob encomenda, pela qual eu recebi não Direitos Autorais, mas um salário, bem bom, aliás, durante seis meses. Fiz a complementação, então, com um livreto extra, sobre os Jogos de Atlanta. Quem comprou o compêndio e o levou à loja recebeu o livreto, sem pagar. Depois, tentei a complementação em 2000. Mas, infelizmente, a editora se desinteressou.

- A última pergunta é sempre aberta ao entrevistado deixar o seu recado para os nossos leitores, enfim, o espaço é seu.

Mais do que um recado, os meus votos a vocês do Surto: "Cubram-se de glórias!"

fotos: blog e instagram de Silvio Lancellotti

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