Coluna Surtado no Esporte - Bošković e Egonu, a cara da nova geração do vôlei feminino

Por Tulio Siqueira

Hoje conhecemos a seleção campeã do mundial de vôlei feminino, no Japão. A Sérvia derrotou, em um jogo duríssimo e com direito à virada, por 3 sets a 2, a jovem e talentosa seleção italiana, tornando-se campeã mundial pela primeira vez na sua história.

Além do confronto entre as duas equipes, que marca uma nova configuração no cenário mundial do vôlei, outra atração da final era o embate entre as duas maiores jogadoras do torneio. Sem demérito às demais atletas, Tijana Bošković (SRB) e Paola Egonu (ITA) se sobressaíram.

As duas foram tão bem que, arrisco apostar, o título de MVP, concedido merecidamente a Tijana Bošković, estava também em disputa na final de hoje. Se a Itália fosse a campeã, provavelmente quem teria levado a honraria seria Egonu. Ambas foram igualmente essenciais as suas equipes e estrelas maiores desse torneio.

Paola Egonu

Egonu, estrela da seleção italiana, tem apenas 19 anos e carregou seu time para a segunda final em sua história, após passar pelas campeãs olímpicas, as chinesas, na semifinal. Na vitória sofrida na semifinal, por 3 sets a 2, no tie-break, a menina marcou nada menos do que 45 pontos (39 ataques - com 44% de aproveitamento ofensivo - 5 aces e 1 bloqueio), quase dois sets inteiros, e estabeleceu o recorde de maior número de pontos em um único jogo de mundial.

Nascida em Cittadella, na província de Pádua, em 18 de dezembro de 1998, filha de pais nigerianos, Paola Egonu, camisa 18 da seleção de vôlei da Itália, desempenha o papel de oposto e mede 1m93cm de altura (dados da FIVB).

O vínculo com a família é muito forte. A menina retorna à Nigéria uma vez por ano, onde seu avô a espera: “Ele acha que as meninas não deveriam usar bermudas que são muito curtas e, na verdade, isso o irrita nas roupas de vôlei”, afirma Egonu.

Ela começou a jogar aos 12 anos e não levou muito tempo para mostrar todo o seu potencial. Com apenas 14 anos, fez a sua estreia no Club Itália, em 2013, lugar onde seu imenso talento floresceu. Em quatro anos com o clube, ela fez sua estreia na Série B1 (espécie de segunda divisão), até chegar à Série A1, momento em que alcançou o recorde do campeonato de pontos em um único jogo (46).

Desde 2017, Egonu joga no clube Agil Novara.

A trajetória na seleção já é de sucesso. Em 2015, com a equipe sub-18, ganhou o ouro no mundial da categoria, sendo eleita a melhor jogadora da edição. Ela também ganhou uma medalha de bronze, dessa vez com a seleção Sub-20 e em 2016, aos 17 anos, disputou a Olimpíada no Rio, mas a seleção não conseguiu chegar longe na competição.

O bicampeonato mundial não veio em 2018, mas alguém duvida que, com uma jogadora como a Egonu no elenco, as italianas poderão sonhar com grandes conquistas?

Tijana Bošković

A excepcional jogadora sérvia tem apenas 21 aninhos e 1m93cm (dados da FIVB). Nasceu em Trebinje, uma pequena cidade da Bósnia e Herzegovina.

Já em 2014, ainda com 17 anos, foi a maior pontuadora de sua equipe no mundial feminino, mostrando que contribuiria muito para que a Sérvia chegasse a lugares até então não desbravados. E, de fato, assim o fez.

Foi eleita a melhor oposta dos Jogos Olímpicos do Rio/2016, quando a seleção da Sérvia fez uma campanha incrível, ficando com a medalha de prata. Em 2017, novamente foi eleita a melhor oposta, agora no Grand Prix (atual liga das nações). No europeu de 2017 ajudou a Sérvia a subir no lugar mais alto do pódio e também foi escolhida a MVP do campeonato. E, no título inédito de hoje, no vôlei, não poderia ser diferente: MVP do Campeonato Mundial de 2018.

“Foi um longo caminho, mas conseguimos chegar ao sucesso histórico. Estou muito orgulhosa de todos. Estou feliz e honrada por ser nomeada MVP do Campeonato Mundial. Eu não poderia ter conseguido sem a ajuda da equipe. Este prêmio me dará uma grande motivação para o futuro. Jogamos como um time e nos apoiamos em momentos difíceis”, disse a jovem.

Há uma história curiosa envolvendo a família Bošković. Quando criança, a notável morava na cidade de Bileca, ao sul da Bósnia e Herzegovina. Sua irmã mais velha, Dajana Bošković foi quem começou a jogar vôlei e incentivou a caçula a acompanhá-la. Ambas chegaram a treinar juntas no time local ŽOK Hercegovac, único da cidade em que moravam.

O talento não demorou a aparecer e as duas receberam um convite do país vizinho: a Sérvia. O Vizura Beograd resolveu apostar e contratou as duas jogadoras. Dajana tinha 17 anos e Tijana tinha 14 quando deixaram a Bósnia para morar na Sérvia, em Belgrado, onde treinariam.

As irmãs, porém, não continuaram juntas por muito tempo. Dajana foi emprestada para um outro time sérvio, em outra cidade, enquanto o Tijana permaneceu em Belgrado.

Dajana se destacou, foi convidada para atuar no voleibol universitário americano e logo foi convocada para a seleção principal da Bósnia e Herzegovina, defendendo o país no qualificatório olímpico para os jogos de Londres/2012.

Tijana seguiu no Vizura e encheu os olhos da confederação Sérvia de Vôlei que convidou a menina para se naturalizar e defender as cores da seleção sérvia sub-18, o que foi aceito.

O resto da história já sabemos: Bošković deslanchou na seleção sérvia e desde 2014 integra a equipe principal.

Curiosamente, as duas agora jogam no mesmo país, a Turquia. Tijana no Eczacibasi Vitra, desde a temporada 2015/2016, da primeira divisão, e Dajana no Sariyer, da segunda divisão.

O currículo de Bošković é pesadíssimo: ela ganhou um Campeonato da Sérvia (temporada 2013/2014), duas Super Copas da Sérvia (2013 e 2014). Ela venceu o Campeonato Mundial de Clubes Feminino da FIVB, em 2016, recebendo o prêmio de MVP e Melhor Oposta com o Eczacibasi Vitra. Na seleção, ela ganhou o Campeonato Europeu Júnior em 2014, também condecorada como MVP do campeonato. Além das atuações já citadas anteriormente: prata com sua seleção nos Jogos Olímpicos Rio/2016, ouro no Campeonato Europeu de 2017 (MVP). E, não esqueçam, hoje mesmo ela vai incluir no próprio currículo: campeã mundial e eleita a melhor jogadora do torneio de 2018, no Japão.

Desempenho das atletas no Mundial do Japão

 
Já foi dito que as duas foram importantíssimas para as suas respectivas equipes, mas vejamos alguns dados das jovens jogadoras neste mundial:

Maiores pontuadoras:
1º Egonu: 324
4º Tijana Bošković: 193

Melhor aproveitamento no ataque:
1º Tijana Bošković: 53,66%
3º Egonu: 48,85%

Egonu é, ainda, a segunda melhor sacadora e a sexta melhor bloqueadora da competição. Tijana Bošković não figura no top dez dessas duas estatísticas, mas está entre as melhores recepções do mundial.

Na final de hoje, as duas foram as maiores pontuadoras de suas respectivas seleções: Egonu (ITA) 33 pontos / Bošković (SRB) 26 pontos. 

Uma coisa é possível concluir. A cara da nova geração do vôlei mundial já tem nome, sobrenome e nacionalidade: Tijana Bošković (SRB) e Paola Egonu (ITA).



Fotos: FIVB



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