Coluna Surto Mundo Afora #26

Por Bruno Guedes


Uma das forças do esporte, a China faz valer seu poderio e se impõe de forma esmagadora nos Jogos Asiáticos 2018. Dez anos após sediar as Olimpíadas de Beijng, a máquina de medalhas continua a todo vapor e despejando novos atletas em mais de 30 modalidades. Bem além da propaganda comunista, como sugerem alguns, o plano do país sempre foi alavancar não só seu patamar esportivo, como também impor a sua liderança como potência mundial.



Segunda maior economia do planeta atualmente, os chineses começaram a mudar a visão sobre o esporte a partir da chamada "Política Ping Pong", durante os anos 70. O evento usou atletas na diplomacia com os Estados Unidos, no auge da Guerra Fria. Percebendo o sucesso, o governo passou a tratar o esporte como algo útil na aproximação com os demais países. E, principalmente, para se distanciar cada vez mais da dependência soviética, àquela altura já um pouco abalada por divergências que iam da economia à geopolítica.

Em Olimpíadas, a China participara apenas de Helsinki, em 1952, sem nenhuma medalha. De 1956 a 1980, em Moscou, os chineses não estiveram em nenhuma das competições devido às disputas políticas que envolviam, entre outras questões, reivindicação sobre Taiwan. A partir de 1984 enviou regularmente competidores. Não por coincidência, evento realizado em Los Angeles, no país que buscou reaproximação na década anterior: Estados Unidos.

Deng Xiaoping, o líder político da República Popular da China entre 1978 e 1990, passou então a tomar ações que modernizaram a economia e o próprio país. E a prática esportiva também se tornou um dos braços desse desenvolvimento. Com o fim da União Soviética e a distribuição dessas medalhas para mais países ou competidores fora do eixo soviético, os chineses saltaram no quadro geral. Em 1992, oito anos após a participação em massa dos Jogos e o primeiro sem a URSS, os asiáticos praticamente dobraram o número de conquistas (quadro abaixo).

Esse ritmo continuou crescendo até o ano 2000, onde no seguinte ganhou o direito de sediar as Olimpíadas para 2008. A partir deste ponto o esporte passou a ser questão de Estado. Querendo mostrar sua força, os chineses elaboraram um enorme projeto desenvolvedor de atletas. O primeiro passo foi o direcionamento do dinheiro. Com uma economia crescente e capital surgindo, o foco inicial foi investir pesado sob o slogan “China Project 119”. O objetivo era alcançar 119 medalhas de ouro nos eventos em que o país fracassou em Sydney. A estratégia foi de, em até 10 anos, o panorama mudar para estarem entre os melhores.

Bilhões de dólares foram empregados. E muito desse recurso foi utilizado para levar cerca de 50 dos melhores treinadores do planeta para desenvolver o esporte local. Junto a essa iniciativa, a China enviou aproximadamente 2500 técnicos chineses para mais de 100 países desde a "Política Ping Pong". Além deles, todos os profissionais diretamente ligados à infraestrutura também foram contratados. Intercâmbio, ideias, soluções e logística. Espalhar as chances de medalhas em muitas frentes, principalmente nas competições individuais, virou arma para o salto nas competições.

O COB (Comitê Olímpico Brasileiro) bebeu bastante da fonte chinesa para tentar alavancar o esporte nacional durante as Olimpíadas do Rio 2016. Foram contratados 40 técnicos estrangeiros que trabalharam diretamente com seleções em diversas modalidades. A prática teve relativo sucesso na ginástica, onde o técnico ucraniano Oleg Ostapenko ajudou no sucesso da Daiane dos Santos e outros atletas, por exemplo. Sem o mesmo capital empregado, a maioria era de cubanos, país que vive uma forte decadência esportiva e com profissionais buscando novos projetos. Mas também com canadenses no polo aquático e neozelandeses no rúgbi.

Mas nada disso seria suficiente sem a propaganda dos Jogos Olímpicos. Beijing 2008 se tornou uma enorme publicidade estatal para elevar não só o patriotismo, como o engajamento populacional. Vale lembrar: até começo dos anos 2000 a China ainda era um país isolado e fechado, o que dificultava seus habitantes de compreenderem a importância do evento. Com uma população superando a casa de um bilhão e recém aberto ao mundo capitalista, uma enorme parcela dos chineses viu no esporte um passaporte para ascensão social ou fuga da pobreza de muitas províncias.

E por elas que estão espalhadas as "peneiras". O resultado FOI milhares de novos atletas. Segundo estimativas da época, 185 mil jovens chineses treinaram em 1.800 centros esportivos antes daqueles Jogos. Os cálculos de alguns observadores americanos era que, destes praticantes, 20 mil com potencial para se tornarem olímpicos. Mais praticantes, mais desenvolvimento e mais medalhas.

Com tanto fomento, o nível se elevou e o investimento se tornou em máquina esportiva. A China, em casa, alcançou o topo com 51 de ouro, 21 de prata e 28 de bronze, totalizando 100. Após terminar três edições seguidas em primeiro (assim como em outras 15 oportunidades), os Estados Unidos foram superados no quadro de medalhas em 2008. Foi a primeira vez, desde 1936, que nem os americanos e nem os soviéticos ficaram na liderança dele.

Deste total, 18 medalhas vieram da Ginástica Artística e 11 do Salto Ornamental. Ou seja, quase um terço de todas as conquistas olímpicas daquele ano. Competições individuais e que acabaram colocando os asiáticos entre os grandes nomes destes esportes.

Obviamente, o Projeto 119 não se viu isento de críticas. A maior delas diz respeito sobre a pressão pelos resultados e o rigor dos treinamentos. O emblemático exemplo foi do campeão nos 110 metros com barreira, Liu Xiang. Ouro em 2004, ele entrou no Estádio Olímpico de Beijing lesionado e só durante a prova o caso foi revelado. A comoção foi tão grande que, em questão de minutos, milhares de pessoas deixaram o local.

Se o "legado olímpico" foi colocado em xeque pelos adversários com o fim daqueles Jogos, a China respondeu à altura. Em Londres 2012 o país manteve o nível com apenas 12 medalhas a menos que em Beijing. Mesmo não participando de todas as modalidades, ao contrário de quatro anos antes quando era anfitriã.

E a máquina não para. Atualmente são empreendidos US$ 600 milhões anuais com os esportes e treinamentos, de acordo com o governo. Hoje a prática é atrelada à educação, com escolas e Centros de Treinamentos desenvolvendo e aprimorando novos atletas. Segundo Barry Peterson, correspondente da CBS News, 200 mil crianças escolhidas a dedo em colégios e CTs estão treinando para Tóquio 2020.

Novamente o rigor do método é questionado. Muitas destas crianças vivem para o esporte. Para grande parte, é uma chance única e que dificilmente teriam como pessoas "comuns".

Então chegamos nos Jogos Asiáticos 2018, uma década após Pequim sediar as Olimpíadas. Em 10 dias, os chineses já tinham superado a casa das 200 medalhas e quase o triplo de ouros que o Japão, segundo colocado. E são conquistas nas mais variadas modalidades, como era plano quando importaram os técnicos. Se o evento serve de termômetro e teste para os Jogos de 2020, parece que o desempenho se mantém em alta.

Cada vez mais o país assume o posto de liderança mundial em diversas áreas estratégicas. O esporte, como sempre foi, não foge disso. Faltando dois anos para a próxima Olimpíada, a geopolítica novamente inclina para o lado chinês enquanto Donald Trump prefere o isolamento dos Estados Unidos, seu maior rival. O que nos espera no próximo quadro de medalhas olímpico?

foto: China News

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