Diego Hypólito revela ter sofrido bullying no início da carreira com o consentimento dos técnicos

Incentivado pelas denúncias da matéria do fantástico sobre as acusações de abusos físicos, morais e sexuais contra o ex-técnico da seleção de ginástica Fernando de Carvalho Lopes, o ginasta Diego Hypólito resolveu revelar casos fortíssimos de bullying sofrido por ele quando ainda era criança e treinava no Flamengo em entrevista à TV Globo.

Segundo Hypolito, medalhista de prata na Olimpíada do Rio e bicampeão mundial no solo, as intimidações eram constantes e envolviam práticas constrangedoras, tais como forçar os ginastas jovens a pegar pilhas com o ânus. O atleta atuou durante a maior parte de sua carreira no clube carioca - ele começou no esporte por volta dos sete anos e prosseguiu lá até 2009.

As situações ocorreram "regularmente" em campeonatos nacionais, sempre com o consentimento dos treinadores. O ginasta citou especificamente uma ocasião, quando tinha 10 para 11 anos, em um Campeonato Brasileiro em Ribeirão Preto (SP), da qual se recorda.

"Quando eu vi a matéria hoje, no Globo Esporte, foi a primeira vez que eu tive coragem de contar pra minha mãe que eles me faziam ficar pelado, e pegar com o ânus uma pilha colocando uma pasta de dente em cima e a questão da humilhação. E, neste dia, quando aconteceu isso, eu tive ataque epilético e, depois, por ter tido o ataque epilético, eu não consegui fazer a prova toda (...) Depois a gente tinha de colocar ainda com o ânus, não podia ajudar com a mão, você tinha de se agachar, pegar a pilha com o ânus e depois deixar dentro de um tênis, num buraquinho de um tênis. E, depois, (...) se a pilha caísse fora, você tinha de voltar e fazer a prova de novo. Eu fiquei muito nervoso com a situação acontecendo, me deu desespero" afirmou Hypolito.

O medalhista olímpico também relatou outra maneira de opressão que sofria quando ainda era garoto. A intimidação imposta por técnicos e ginastas mais velhos consistia em punir erros com o asfixiamento em compensados estreitos de madeira, em um ambiente claustrofóbico. As atitudes lhe causaram traumas que ainda não superou.

"Quando a gente não treinava certo ou acontecia alguma errada, tinha períodos do ano que eles (técnicos) faziam isso de pegar e colocar a gente dentro de uma tampa de plinto. E ainda jogavam magnésio com a gente dentro, igual a um caixão. (...) Hoje eu tenho problema pra entrar em avião, que é fechado, elevador, que é fechado. Não consigo entrar em túnel, que eu tenho medo. São todos reflexos do que eu vivi quando eu era criança e que eu jamais imaginei" contou.

Para Hypolito, a discussão sobre os métodos que foi levantada com a revelação do caso de abuso de seu ex-treinador deve ser encarada como uma chance de reflexão e mudança de hábitos recorrentes no meio da ginástica.

"Não tem mais como a gente passar por isso e ficar impune porque isso dá reflexos pro resto da minha vida. Eu nunca pude me defender porque a sensação que eu sempre tive é que, se eu faço isso, eu posso ser punido. E sou. E somos. É muito triste isso acontecer agora. Eu tinha muita vergonha. Tenho ainda muita vergonha por isso ter acontecido. Não tenho orgulho nenhum de isso ter acontecido comigo. Isso fere muito. Acho que a gente tem de mudar isso" disse.


foto: Getty Images

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