Coluna Surto Mundo Afora #19

Por Bruno Guedes

Daqui a um mês começará a Copa do Mundo. Será o segundo grande evento mundial na Rússia em quatro anos, já que tivemos as Olimpíadas de Inverno de Sochi 2014. Em ambas as ocasiões o debate girou em torno dos gastos assustadores com as obras e denúncias de todos os tipos. Mas por que será que tantos países em desenvolvimento passaram a sediar as principais competições esportivas do planeta?

No último mês de abril o Comitê Organizador divulgou um balanço que atualizou para 683 bilhões de rublos - R$ 38,49 bilhões - o custo com a Copa da Rússia 2018. Este valor é 7% maior que o informado há pouco mais de um ano, quando um novo balanço sobre o evento tinha sido feito. Apenas com a chamada "infraestrutura esportiva", ou seja, os estádios, foram utilizados 40% deste montante. Ao todo foram construídos ou reformados 12 arenas e 95 bases de treinos. 

Os gastos despertaram não só a desconfiança das agências internacionais, como uma chuva de críticas e denúncias. Uma delas veio da revista norueguesa Josimar, que apontou o uso de trabalho escravo de norte-coreanos e as péssimas condições de trabalho para os trabalhadores imigrantes – que representam cerca de 50% da mão de obra dos estádios da Copa, segundo o próprio Comitê Organizador Local da Copa 2018 - na Arena Zenit, em São Petersburgo. De acordo com a organização anti-corrupção da Transparência Internacional o valor da obra, que já estava atrasada há quase 10 anos, saltou de US$ 220 milhões para US$ 1,5 bilhão.

Se não bastassem essas denúncias, durante Sochi 2014 outras surgiram já em meio às Olimpíadas de Inverno. A mais famosa dela foi retratada no documentário "Ícaro", vencedor do Oscar em 2018 e que detalhou o meticuloso e ousado esquema de doping da delegação russa. Para estes Jogos, o governo reconheceu que foram gastos US$ 50 bilhões. Segundo a Fundação Anti-Corrupção disse à reportagem da BBC à época, o governo russo entrou com 54% do total de recursos. A ONG de Moscou faz ativismo contra os gastos.

No Brasil, a Copa do Mundo custou R$ 25,5 bilhões e as Olimpíadas passaram de R$ 41,03 bilhões. Meses após as realizações, explodiram as denúncias de corrupção e a investigação Lava Jato esmiuçou em detalhes os desvios nas obras.

A explicação envolve um complexo contexto geopolítico e muitas denúncias de compra de votos. Desde o começo dos anos 2000 os países desenvolvidos passaram a ter postura mais cautelar quanto a receber Copa do Mundo e Olimpíadas. Os investimentos feitos vieram perdendo não só o apoio popular, como baixo retorno de fato para algumas cidades consolidadas dos grandes centros mundiais.

Escolhidas no final dos anos 90, Atenas sediou os Jogos de Verão em 2004 e a Alemanha a Copa de 2006, mas esta última sob muita crítica da população. Veio então a primeira grande descentralização das potências quanto aos Jogos: Beijing, em 2008, então capital de país que começava a se abrir para o mundo quando escolhida sete anos antes, recebeu as Olimpíadas justamente no mesmo período em que estourou a Crise Econômica que afetou o mundo. Apesar de atualmente ser uma das maiores economias do planeta, a China ainda é tratada como um país em desenvolvimento e por diversos motivos. Por isso, foi considerada a expoente fora de um local desenvolvido.

Com o setor de construção civil sendo um dos principais afetados durante a crise, ficava mais difícil para ele assumir obras de infraestruturas para Copa ou Jogos Olímpicos. Ou seja, seriam os Estados os responsáveis por entrarem com o capital para erguer estádios e afins. Seria menos dinheiro circulando, menos arrecadação e mais necessidade de investimentos públicos essenciais. E quem fizesse o contrário correria sérios riscos em várias frentes políticas.

Europa e EUA sentiram diretamente os efeitos desta depressão financeira, abrindo mão totalmente de receber qualquer um destes eventos. Londres, porém, já tinha sido escolhida antes do problema e precisou conviver com a total reprovação quanto a sua realização em 2012. O mesmo aconteceu com Vancouver, dois anos antes. Assim, os países emergentes foram os grandes "beneficiados" com a Crise de 2007/2008 porque foram os menos afetados economicamente e tiveram concorrências com fraquíssimas garantias. Seus desdobramentos são sentidos ainda hoje em dia, como na Grécia e Itália. Mas a partir de 2013 começaram a melhorar.

O primeiro deles foi o Brasil, que com a rotatividade continental da Copa e muitas candidaturas falhas para 2016, acabou sendo escolhido como sede de ambas as competições. Depois vieram Rússia para 2018 e Catar para 2022. Todas as escolhas sob denúncias de compra de votos. Já nesse contexto de muitas potências desenvolvidas abrindo mão da concorrência, vivemos uma década quase toda de países fora do eixo europeu/norte-americano, com a já citada exceção inglesa:

2008 - Olimpíadas de Pequim (Escolhida em 2001, antes da Crise)
2010 - Copa do Mundo da África do Sul e Olimpíadas de Vancouver (Escolhidas em 2004 e 2003, respectivamente, antes da Crise)
2012 - Olimpíadas de Londres (Escolhida em 2005, antes da Crise)
2014 - Copa do Mundo do Brasil e Olimpíadas de Sochi (Escolhidas em 2007, durante o começo da Crise)
2016 - Olimpíadas do Rio (Escolhida em 2009, durante a Crise)
2018 - Copa do Mundo da Rússia e Olimpíadas de PyeongChang (Escolhidas em 2010 e 2011, respectivamente, durante a Crise)
2020 - Olimpíadas de Tóquio (Escolhida em 2013, após a Crise)
2022 - Copa do Mundo do Catar e Olimpíadas de Beijing (Escolhidas em 2010 e 2015, durante e após a Crise, respectivamente)

Em 2017, através de uma parceria com Ministério Público, autoridades francesas desvendaram compra de votos para o Brasil sediar os Jogos Olímpicos. O caso levou para cadeia figuras importantes do esporte nacional, entre elas o então presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman. Junta-se a isso o enorme esquema de corrupção que assola o país e tem as empreiteiras como grandes personagens, retrato de como muitos políticos se aproveitaram de tais oportunidades.

Já com economias se recuperando e os investimentos retornando, o COI escolheu Paris como sede das Olimpíadas de 2024 e Los Angeles 2028. Duas cidades altamente esportivas e economicamente ativas. Mas após Hamburgo, Boston, Roma e Budapeste desistirem da candidatura para a 2024. E isso já é um reflexo na mudança de perfil das candidatas. Com orçamentos exorbitantes, poucos vêm demonstrando interesse em receber os Jogos. Para as de Inverno 2022 e 2024, só contavam com dois candidatos.

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