Coluna Lógos Olympikus #10 - A inclusão de países na neve

Esqueça os grandes medalhistas, os principais atletas, as quebras de recorde.  Hoje o que mais chamou a atenção nos Jogos Olímpicos de PyeongChang foi justamente o oposto disso. Em duas modalidades, Skeleton e Esqui Cross-Country, atletas que ficaram nas últimas colocações foram protagonistas por alguns momentos.


Lembra-se do filme “Jamaica abaixo de zero”?  Esse momento chegaria uma hora ou outra. Pois bem, no dia que completamos uma semana de disputas por medalhas, o pitoresco, o adverso, o contrario da elite deu suas caras. São dois lados de uma moeda: por um, os atletas mostram o grande espírito olímpico de perseverança e competitividade, por outro, é engraçado e, por vezes, bizarro ver atletas sem aptidão alguma no esporte competindo no mesmo cenário dos grandes campeões olímpicos.

No Skeleton, tivemos 30 atletas até a terceira descida e os 20 melhores foram para a volta final. Desses 30, me atenho aos três últimos, mais especificamente ao último colocado. Em 28º, ficou o atleta de Israel, Adam Edelman, que é de um local diferente, mas que acredito ter “portas abertas” para competir nos grandes centros. Em 29º, ficou o atleta da Jamaica, Anthony Watson, que faz lembrar a situação do filme, mas não é o único atleta da delegação do país. Agora o 30º... Akwasi Frimpong fez história ao se tornar o primeiro representante de Gana em Olímpiada de Inverno. Ele desceu há três segundos e meio (em um esporte decidido por milésimos) a mais do que o inédito campeão coreano Sungbin Yun na terceira descida e essa foi a melhor volta dele, acredite. Mas levou com bom humor seu resultado, fez dancinha, mostrando animação, levou o filho pequeno para ver o mascote Soohorang, o Tigre Branco. Roubou a cena da competição até o momento da decisão da medalha.

Agora, no Esqui Cross-Country masculino 15 km estilo livre foi a democratização dos esportes na neve. Tudo quanto é nação esteve presente, mesmo sem a menor condição de competitividade em alto nível. A prova até perde a emoção de disputa e passa a focar na superação pessoal de cada um. Bósnia-Herzegovina, Macedônia, Mongólia, Índia, Bermudas, Paquistão, Líbano, Marrocos, Equador, Portugal e Colômbia são alguns dos países distintos que tiveram representantes na prova.

Mas vou falar de três outros casos. O Brasil esteve presente com a fantástica história de Victor Santos, que há cinco anos era flanelinha e hoje chegou em 110º. Valeu como uma primeira participação, mas ele mesmo já disse que vai buscar melhorar sua marca nas próximas edições.  Tomara que consiga uma longevidade e cresça mesmo. Só de sair das ruas através de um programa social e estar dedicado ao esporte já é uma vitória. Os outros dois casos: Pita Taufatofua, o besuntado de Tonga, atleta de Taekwondo, claramente foi para a Coreia para aparecer novamente, não tinha porque estar lá. Colocou o nome na história por disputar Jogos de Verão e Inverno, terminou em 114º; e German Madrazo, o mexicano de 43 anos, que chegou em 116º, último dos que completaram, aprendeu a esquiar a menos de um ano, se arrastou até o final, fazendo quase o dobro do tempo do campeão suíço Dario Cologna, mas saiu como herói, com a bandeira do seu país em punho, sendo carregado por outros atletas, ovacionado pelo público, enquanto o campeão, que já tinha saído do local de prova, se arrumado e voltado, assistia a cena com um sorriso amarelo.

Seja por qual motivo for, esses atletas merecem uma saudação e menção honrosa. Estão lá para fazer seu melhor, representar seu local de nascimento, seu povo e sua cultura, carregam uma bandeira e uma história, fazem parte de todas as edições de Olimpíada, treinaram bem ou mal, mas treinaram e estão indo para competir. Se os Jogos são a confraternização dos povos, a celebração da humanidade, nada mais justo que tenha gente do mundo todo em, ao menos, uma competição para que sejam vistos.

foto: Getty Images

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