Paixão pelo esporte de líder norte-coreano pode ser trunfo para convencer o país a disputar as Olimpíadas de PyeongChang

As autoridades olímpicas que tentam convencer a Coreia do Norte a participar das Olimpíadas de Inverno de PyeongChang 2018, na Coreia do Sul, podem contar com um forte argumento, a paixão do líder norte-coreano, Kim Jong Um, pelo esporte. Kim vem trocando insultos e ameaças de ataques nucleares com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao longo dos últimos meses, levantando preocupações sobre a segurança dos Jogos que serão disputados a apenas 80 km de distância da fronteira com a Coreia do Norte.

As sanções econômicas sobre o país de regime fechado estão crescendo, mas o mundo esportivo e a Coréia do Sul estão fazendo tudo o que está ao seu alcance para tentar convencer ao país ao norte a aceitar um convite de participar dos Jogos e assim aliviar as tensões geopolíticas que prejudicaram a venda de ingressos do evento. "Estamos fazendo o máximo para a participação do Norte. Mas Kim Jong Un é muito imprevisível", disse Song Ki-hun, um legislador do presidente sul-coreano Moon Jae-in. Ki-hun está baseado perto do local dos Jogos e se senta em uma comissão parlamentar especial para apoiar as Olimpíadas de Pyeongchang.

O líder norte-coreano é um fã de basquete e tem como amigo uma ex-estrela da NBA, Dennis Rodman. Além disso, Kim aumentou sua paixão pelo esporte, já que vê nele um possível canal para mostrar a força de seu país, pretendendo assim fazer da Coreia do Norte uma das nações poderosas no esporte. Se os vizinhos ao Norte se juntarem aos Jogos marcará a primeira vez na história olímpica de pós-guerra que um país hospedou uma equipe de uma nação com a qual está oficialmente em guerra. A Guerra das Coreias terminou em 1953 com um armistício, não um tratado de paz.

Kim Jong Un, neto do fundador da Coreia do Norte, Kim Il Sung, fez do esporte um foco importante de seu plano para melhorar o padrão de vida. Quando assumiu o poder em 2011 os gastos com o esporte nos orçamentos anuais do país aumentaram mais rapidamente do que a maioria das outras áreas, de acordo com relatórios estatais da mídia. Os relatórios, que aponta apenas dados percentuais, incluem um salto recorde de 17% no financiamento em 2014, quando Kim expôs sua ambição para o esporte em uma carta aberta ao seu Partido dos Trabalhadores.

Ele pediu que o partido e os atletas ajudassem a transformar o esporte, fazendo dele parte da vida diária, além de defender "o plano do partido de construir nosso país em um poder esportivo, suar mais em treinamento para trazer glória ao país, ganhando medalhas de ouro". Além disso, Kim tem relações diretas com o esporte desde quando era criança.

Simon Cockerell, chefe da Koryo Tours, com sede em Pequim, que levou competidores para a Coreia do Norte para eventos que vão desde a Maratona de Pyongyang até o lançamento de Frisbee e cricket, disse que notou um foco crescente nos esportes sob o comando de Kim. "Mais eventos parecem estar acontecendo, as equipes esportivas da Coreia do Norte estão viajando mais do que nunca, e o sucesso é celebrado mais do que antes", disse Cockerell.

Nos Jogos da Ásia de 2014, disputados na Coréia do Sul, os atletas da Coréia do Norte ganharam 11 medalhas de ouro, ocupando o sexto lugar geral. Quando voltaram para o norte, foram recebidos com um desfile da vitória e um banquete com Kim, que agradeceu aos atletas por validarem o "plano do partido para a construção de uma potência esportiva".

Até o momento apenas dois atletas norte-coreanos se qualificaram para os Jogos, a dupla da patinação artística Ryom Tae Ok e Kim Ju Sik, que tiveram suas rotinas feitas com as músicas dos Beatles e Ginette Reno. De acordo com um funcionário do COI, o país que outros atletas podem se qualificar no esqui cross-country, e possivelmente patinação de velocidade e biatlo.

Ainda que não consigam mais classificações, os atletas do país podem receber convites para participarem de algumas modalidades, disse Lee Hee-Beom, do comitê organizador de PyeongChang. Os convites são normais para países de pouca tradição esportiva ou para países tropicais, que não possuem invernos rigorosos, poderem disputar os Jogos. Um exemplo famoso foi o convide para uma equipe jamaicana de bobsled disputar as Olimpíadas de Calgary em 1988. O feito da equipe jamaicana acabou inspirando um filme de grande sucesso, o “Bananas Congeladas”.  

Na última vez que a Coréia do Sul acolheu as Olimpíadas, os Jogos de Verão de 1988 em Seul, o fundador da Coréia do Norte, Kim Il Sung, boicotou o evento depois que um plano para dividirem a hospedagem não foi para frente. "Com a Coréia do Norte lá, as coisas serão mais suaves. Os Jogos só serão bem-sucedidos se forem suaves. Se os Estados Unidos, a Coréia do Norte e a China tiverem suas equipes na Coréia do Sul, isso será um sucesso", disse um funcionário europeu de uma federação de esportes de inverno que não quis se identificar.

A Coreia do Norte perdeu o prazo de 31 de outubro para aceitar os convites do Comitê Olímpico Internacional (COI) e da Coréia do Sul para participar dos Jogos, entretanto, funcionários do evento disseram que eles podem esperar até pouco antes dos Jogos por uma resposta positiva dos norte-coreanos sobre a sua participação. O COI disse que sua ajuda até agora tem sido principalmente com os custos de viagem e competição, e irá considerar a entrega de convites para aqueles atletas que não atenderem aos padrões de qualificação.

Seul disse que está aberto para formar uma equipe unificada de hóquei no gelo entre os dois países, e apesar de o representante de Pyongyang no COI ter rejeitado essa ideia em uma recente entrevista, um funcionário do ministério da cultura sul-coreano disse que Seul não a abandonou. Os outros gestos de Seul incluem uma proposta rara para os atletas norte-coreanos entrarem no Sul atravessando a fronteira em Panmunjom, a "aldeia de tréguas", tensa e fortemente protegida, onde o armistício de 1953 foi assinado.


A Casa Branca não quis comentar sobre a perspectiva de os atletas dos Estados Unidos competirem com a Coréia do Norte, um país que Trump ameaçou "destruir totalmente" caso seja provocado. 

Foto: AFP


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