Coluna Lógos Olympikus - O Adeus de Martina Hingis

Por Juvenal Dias

Quem acompanha o circuito mundial de tênis, se acostumou a ouvir o nome de Martina Hingis nos últimos 23 anos, fato que não deve mais acontecer com a nova, e agora creio que definitiva, aposentadoria da suíça, anunciada na última semana e concretizada após sua eliminação na semifinal do WTA Finals, ao lado da parceira tailandesa Chan Yung-jan. Depois de tantas idas e vindas, Hingis decidiu por um ponto final em sua vitoriosa carreira, encerrando em alto nível, simplesmente como número 1 do mundo nas duplas femininas. Certamente teria muito tênis para apresentar, tecnicamente falando, mas é provável que seu corpo tenha chegado a um limite físico no qual nem a parte mental é capaz de superar. É o momento em que todo atleta se depara com a verdade mais absoluta: o tempo é implacável e infalível.

A aposentadoria de um esportista de ponta é sempre marcante e deixa um vazio para si e para todos seus fãs, principalmente porque se dedicou a vida inteira a fazer aquela atividade, abriu mão de muitos prazeres e muitos momentos em que poderia estar com família e amigos para treinar, aprimorar e se superar, para buscar ser melhor que o dia anterior e, em alguns casos, alcançar o objetivo máximo de ser o melhor do mundo na sua modalidade.

Com Martina não foi diferente. É impossível pensar que alguém com 14 anos, idade com que estreou como profissional, não sinta falta de viver coisas que um adolescente normal viveu. Mas ela soube superar esse lado, extraindo o melhor de seu jogo rapidamente e colhendo frutos que a notabilizaram como um talento precoce nas quadras. Em 1996, com 15 anos, já mostrava seu talento nas duplas, ao vencer Wimbledon ao lado da tcheca Helena Sukova. Isso que já havia vencido dois torneios menores no ano anterior. Em 97, foi o ano mais vitorioso de sua carreira, ganhando simplesmente doze títulos de simples e oito de duplas, sendo que jogando simples quase fez o Grand Slam, que é quando um tenista vence os quatro principais torneios em um ano, só não ganhou Roland Garros, torneio que chegou à final daquele ano e nunca conquistou em simples, apenas em duplas. Esses feitos a tornou a mais jovem jogadora a erguer uma taça de um Major. Como se não bastasse, foi a mais nova a se tornar número 1 no fim do primeiro trimestre desse ano mágico em sua trajetória. Recordo que era uma época que não tinha tantas transmissões de tênis feminino, mas seus feitos chamavam a atenção dos noticiários esportivos.

Sua prematuridade a seguiu para o fim de sua primeira passagem no esporte. Com 22 anos, as dores no corpo já eram constantemente fortes e lesões no tornozelo a fizeram parar de jogar. Retornou em 2006, até se afastar novamente no ano seguinte por doping por cocaína, ela teria que ficar longe das quadras por dois anos, mas resolveu aposentar-se novamente. Está aí outro momento que deve ser bem complicado na vida de atletas, parar e retornar, ter forças para continuar da onde parou, seguir em frente em busca de desafios novos, se motivar para fazer aquilo que mais sabe e mais deu prazer em outrora.

Nesse hiato até seu retorno em 2013 houve uma falta de brilho nas quadras. Ela teve que se reinventar e passou a se dedicar às duplas e duplas mistas. Desde então veio acumulando mais títulos com diferentes parceiros. Teve uma passagem marcante nos Jogos Olímpicos do Rio, ano passado, conquistando a medalha de prata ao lado de Timea Bacsinszky. No ano atual, entre todas suas glórias, venceu os Grand Slams de Wimbledon e US Open em duplas mistas e o mesmo torneio americano com sua parceira atual. Ao todo foram 43 triunfos em simples, 64 em duplas e 7 em duplas mistas, além da prata olímpica e do vice-campeonato na Fed Cup de 98, torneio feminino de nações.

Ela teve seu lado controverso, com fortes declarações contra outras tenistas, principalmente na época que jogava torneios de simples. Tais polêmicas tornaram-na um tanto antipática em vista da mídia, das outras jogadoras do circuito e de muitos espectadores. Mas acredito que sempre fez parte de sua personalidade ríspida. No entanto, foram raras as vezes que não se via seu largo sorriso em quadra, pelo menos lá sempre pareceu estar de bem com a vida.

O adeus é triste para quem acompanhou e torceu pelo seu sucesso, deve ter sido doloroso para ela tomar esta decisão. Mas, ao olhar para trás e ver seu nome escrito como uma das grandes, mesmo que de forma contestável, vem com uma satisfação de dever cumprido, principalmente por toda glória e notoriedade alcançada. Assim é a vida de grandes esportistas, que muitas vezes continuam ligados ao esporte que praticavam com menos holofotes. Certamente seus simpatizantes esperam para vê-la novamente e as redes sociais estão à disposição para encurtar a distância e acompanha-la em suas novas atividades.


foto: Divulgação

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